sábado, 1 de dezembro de 2012

A Bolsa de Valores das boas intenções?

Existe mesmo eficácia nestas petições virtuais? Como não me custa nada e me toma pouquíssimo tempo, assino todas que me chegam, seja para impedir a morte de rinocerontes na África, de homossexuais em Uganda, de crianças em trabalho escravo, et cetera... Mas, confesso que não acredito muito em sua real eficácia. E nem discuto aqui a possibilidade de que, por trás destes sites de petições, possam estar pessoas mal intencionadas, preocupadas apenas em obter nossos dados pessoais. Acredito mesmo que não é o caso e que os quem mantém tais sites estão de fato engajados numa causa justa.


No entanto, tenho a impressão de que esta medida acabará se tornando inócua pela possibilidade de facilitação do processo de luta. É tão mais fácil assinar uma petição virtual e acreditar que ela chegará a quem pode fazer alguma coisa pela causa do que ir à guerra. Sinto que vai acabar acontecendo um enorme acúmulo de petições virtuais direcionadas às pessoas que poderiam fazer algo, mas que não farão porque estarão ocupadas demais analisando cada causa que lhes chega por e-mail.


Afigura-se como uma espécie de bolsa de valores, nas quais as facilidades de ganhar dinheiro comprando ações de empresas que produzem riquezas podem se revelar mais atrativas do que a própria produção material de bens de valor. Até que tantos trabalhadores deixem as empresas para viver de aquisição de ações. O resultado é que, sem ter quem produza riqueza, as empresas inevitavelmente se desvalorizam, ocasionando a quebra de investidores em ações, que nada mais são que “bens virtuais”. O resultado disso são empresas falidas e investidores com títulos que não valem coisa alguma. A história tem 1929 para nos mostrar isto.


Da mesma forma, petições virtuais me parecem uma atrativa forma de combater um mal, apenas clicando num botão. O resultado disso é que em vez de irmos armados à África para matar caçadores de rinocerontes e hienas, vamos preferir ajudá-los com um clique. E quando todos decidirem apenas assinar petições virtuais, quem efetivamente estará em campo para colocar em prática as reivindicações? Haverá uma bancarrota das boas intenções pela falta de gente para cumpri-las?


Investidores da bolsa aprenderam que é possível continuar enriquecendo adquirindo ações, desde que não estejam limitados a isto e, por outro, participem mais ativamente na produção de capital que irá incorporar o real valor àquele título que adquire. Da mesma forma, pelo sim, pelo não, sou a favor e pretendo continuar assinando tais petições ou simplesmente clicando no compartilhamento de uma foto em redes sociais, na busca de solução para causas em que acredito. Porém, sou adepto da batalha efetiva e a não me acomodar acreditando que estas atitudes bastarão para tornar o mundo um lugar melhor.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Desejo Derradeiro

Assaltam-me, vez ou outra, pensamentos mórbidos acerca do fim da vida. Não a vida como um todo. Não falo aqui de uma grande catástrofe capaz de exterminar todo e qualquer ser vivente. Falo apenas da minha vida. Do fim da minha vida. É natural. É periódico. É inevitável. Especialmente depois de ter vivenciado situações peculiares em que o pensamento de morte se fez diariamente presente. E aqui, reservo-me o direito de repetir o velho clichê de que a morte é a única certeza que temos da vida.

Algumas semanas atrás, questionando-me acerca do que eu escolheria como meu próprio funeral, cheguei à conclusão de que considero todos estes ritos extremamente primitivos, arcaicos e desnecessários. Existe toda uma indústria que lucra com a morte alheia e eu não gostaria de alimentá-la. Mas, não somente isto. Acho realmente – não sei exatamente porque – pouco civilizado cavar um buraco, depositar um cadáver vestido para gala, como muitas vezes jamais se vestiu durante sua vida inteira, enquanto parentes e amigos se despedem chorando, lamentando a perda e, por fim, jogando terra naquele resto que um dia foi uma pessoa.

E a mera probabilidade de vir a ter esculturas cristãs e placas com orações ornando meu sepulcro me causa uma ojeriza quase táctil. Como ateu, consideraria afrontosa a presença de um padre, um pastor ou qualquer tipo de sacerdote fazendo da minha morte o pretexto para a realização de um culto a uma entidade na qual vivi sem acreditar, proferindo sermões vazios de sentido, em que predominassem o tom resignado por, em tese, eu habitar dali em diante um lugar melhor. Definitivamente, estar debaixo da terra jamais seria um lugar melhor para mim. Especialmente ao se considerar o misto de claustrofobia e tafofobia que sempre carreguei comigo.

Descarto com a mesma veemência o ritual da cremação. Não vislumbro o menor sentido quando imagino minha mãe ou algum outro parente vivo me levando pra casa sob a forma de cinzas, especialmente depois de eu ter sido queimado, lançando no ar certa quantidade de dióxido de carbono. Rituais fúnebres são poluentes. Rituais fúnebres são antiecológicos. E egoístas. Para satisfação da vaidade dos familiares, gastam-se fortunas com os melhores esquifes, com roupas novas, muito provavelmente confeccionadas com materiais não biodegradáveis, que levarão centenas de anos para se decomporem. E eu não me sinto confortável com a ideia de que minha morte produzirá degradação ao meio ambiente, sendo-me suficiente a que produzo em vida.

Sempre defendi a ideia de doar todos os meus órgãos aproveitáveis e ter a sensação de que minha morte não terá sido em vão. No entanto, tendo enfrentado um câncer, existe uma grande possibilidade de que nenhum será aproveitável. E ainda que sejam alguns, o que fazer com todo o restante? Quilos de ossos, músculos e gorduras simplesmente depositados sob a terra para apodrecerem sem ao menos servirem de adubo a algum espécime vegetal em estado natural, que porventura esteja ameaçado de extinção? Inútil desperdício.

Saltando de pensamento a outro, tomei uma decisão que pode parecer insana aos olhos dos desavisados. Mas, quem se importa? É livre o meu direito de dispor do meu corpo morto. O artigo 1.881 do Código Civil em vigor me dá a liberdade de decidir como será meu rito fúnebre, como minha vontade derradeira.

Não tenho andando com paciência para trâmites legais nos últimos tempos, por isso, faço deste texto meu codicilo público. Pelo menos até que tenha tempo de elaborar um na forma prevista em lei. Se algo grave me ocorrer antes que tenha criado todas as disposições testamentárias e codicilares, que sirva este texto como comprovação de minha vontade: quero virar comida de animais carentes, sejam eles cães, gatos, ou alguma outra espécie de carnívoro que viva na rua ou seja mantido em instituições para proteção.

Não, isto não é uma brincadeira. Tampouco tem a mera intenção de causar algum choque. Apenas saltou-me à mente como uma epifania, num momento de reflexões diversas sobre o sentido de viver e morrer, mostrando-me que, para os valores que agreguei ao longo da minha vida, eu não poderia ter um fim mais nobre!

Quero meu cadáver fatiado em bifes suculentos e jogados aos animais miseráveis que vivem - e sobrevivem - sem eira nem beira e que conhecem apenas o dia de hoje, o qual, muitas vezes termina sem que haja qualquer mudança em sua condição famélica.

Nada há de chocante em tudo isto. Quem fatiaria um com um ser humano e o atiraria a cães famintos? A mesma indústria que gira em torno da morte. Nesta hipótese, entretanto, movimentada por um fim nobre. Antes que argumentos vagos de que esta logística se torne impraticável unicamente por parecer macabra, questiono se é menos soturno depositar um cadáver numa caixa e atear fogo até torná-lo cinza; se é menos apavorante despir, banhar, vestir com roupas novas, perfumar e cobrir de flores um ser inerte e gelado, que nenhuma utilidade terá, senão apodrecer lentamente até desfazer-se em pó.

Não é isto que quero para mim. Quero em vida sentir o alívio de que pelo menos por um dia cães sarnentos e gatos vadios, filhos de ninguém, tenham sido alimentados com carne fresca, não por mim, mas de mim. Por que se o amor verdadeiro é aquele que ultrapassa os meandros da morte, assim é o amor que tenho para dar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Doutor é quem fez Doutorado!

Hoje me deparei com aquela velha discussão sobre Advogados merecerem ou não o título de Doutor, que não costuma me atrair. A verdade é que acho esta discussão de uma futilidade imensa e o único sentido para justificá-la, a meu ver, é uma vaidade desnecessária e ridícula dos Advogados, classe na qual me incluo.

Talvez em meados do século XIX fizesse algum sentido receber um título de Doutor, já que isto conferia a quem o portasse uma habilitação para lecionar. Hoje em dia há outros critérios mais precisos para a licenciatura de qualquer disciplina que seja e chamar um advogado de Doutor é um tipo de formalismo besta que satisfaz somente o ego ferido de um profissional desvalorizado em decorrência, não somente de um mercado inflacionado, mas principalmente, pela própria classe, já que seus integrantes, para não ficarem desempregados, submetem-se a salários vergonhosos de R$ 1.200,00, R$ 1.500,00 ou valores próximos a estes...

A pergunta que faço é: em pleno século XXI que diferença faz ser chamado pelo pomposo título de Doutor se isto se revelar apenas um rótulo, desprovido de qualquer conteúdo? Que estranho mecanismo é esse que coloca o Advogado como "Doutor" e o Professor com Mestrado, Doutorado, PhD e o Diabo a Quatro apenas como "Professor"? E o Administrador, o Economista, o Publicitário, o Comunicólogo, o Designer Gráfico? Por mais MBAs que tenham feito, por mais pós-graduados, Mestres e Doutores que sejam, continuam sendo chamados, quando não somente pelos seus nomes pessoais, apenas por "Administrador", "Economista", "Publicitário", "Comunicólogo" e "Designer Gráfico"?

Isso porque lá nos primórdios do Brasil Imperial decidiu-se que o Advogado tinha habilitação especial para dar aulas... Advogado lecionando? Com o péssimo uso do Português que muitos andam fazendo atualmente, deveriam antes ter vergonha de se declararem Graduados! E o que dizer de EXIGIREM serem chamados de Doutores?!

Sim, também sou Advogado. Reconhecedor da grandiosidade desta profissão. Admirador de quem realmente se empenha pela obtenção de justiça através da aplicação das normas. Envergonhado de ver tanta gente carregando consigo um diploma, sem ao menos saber ler e escrever corretamente, mas exigindo ser chamado de Doutor porque acredita, com isto, estar-se valorizando a categoria.

Desculpem-me os meus caros colegas, mas não concordo. Hoje os títulos de Doutor, Mestre, PhD, Bacharel, ou qualquer outro trazem ínsito um sentido que lhes é inerente e, por tal razão, justifica sua existência. Sendo assim, não me considero digno de carregar nos ombros o peso de ser chamado de Doutor apenas porque sou Advogado e apenas porque a letra morta de um Decreto obsoleto assim o definiu.

A lógica que permeia meu discurso é a mesma que me faz recusar terminantemente chamar um Juiz de Vossa Excelência! Se o estudo dos pronomes de tratamento me ensinou a tratar Juiz por Meritíssimo, é assim que o farei. E ainda com ressalvas, porque muitos não possuem qualquer mérito que justifique tal superlativo.

Então, por favor, Senhores Advogados, em vez de se preocuparem em creditar a si próprios um título vazio e desprovido de valor, conferindo-se uma pompa desnecessária e sem sentido, façam por merecê-lo! Qualifiquem-se e honrem seus diplomas! Doutor, para mim, é quem fez Doutorado.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Retrato de um Universo Particular

Dias atrás um casal de amigos contratou meus incipientes préstimos fotográficos para registrar o aniversário de um ano do seu filho. Munido dos meus modestos equipamentos e conhecimentos, arrisquei-me na aventura, ansiando por fazer um bom trabalho e solidificar a confiança que meus amigos depositaram em meu potencial, bem como iniciar minha rede de contatos e conquistar a confiança de outras tantas pessoas ali presentes.

Eu estava bastante animado com a agitação provocada pela gurizada presente; aproveitava a natural entrega das crianças, que sorriam para mim ao perceberem que eu segurava uma câmera como se dissessem “por favor, fotografe-me!” Num dado instante, percebendo que meu público mirim estava se comprazendo com a situação, decidi pedir que todos se reunissem em torno dos brinquedos e sorrissem para um retrato coletivo.

Apenas uma das crianças parecia me ignorar, chegando mesmo a me dar as costas quando duas senhoras, que suponho sejam sua mãe e sua avó, chamaram-lhe repetidas vezes: “João*, olhe para a câmera!”, sem sucesso algum. A impressão que tive era a de que, para aquelas senhoras, aquele menino bonito de grandes olhos escuros e arredondados realmente tinha que sair na foto. Quando o chamei, obtive como resposta o mesmo alheamento. Eufórico, João apenas brincava junto às outras crianças, não com elas, e de costas para mim.

“Não adianta” – disse uma das mulheres, num tom de voz notadamente tristonho – “ele não vai olhar”. Como se pedisse desculpas, emendou, parecendo constrangida, enquanto o pegava no colo, numa voz miúda, quase inaudível: “Vem, João, deixe o moço tirar a foto...” – e me olhando – “ele não percebe o mundo à sua volta. É autista.”

Então deduzi porque as duas senhorinhas faziam tanta questão de que João fosse fotografado olhando para a lente: isso lhes daria um registro raro, no qual o garoto ficaria para sempre imortalizado olhando nos olhos de qualquer um que olhasse seu retrato. Seria possível guardar uma imagem na qual João estaria mantendo contato visual com o mundo ao seu redor.

Confesso que por alguns instantes esqueci que eu estava ali para fotografar o aniversariante e sua família e concentrei esforços em tentar obter um retrato de João, que não parava quieto, divertindo-se com alguma brincadeira que somente em seu mundinho particular poderia ser brincada. Pulava, corria e sorria. Não parava um só instante e, sozinho, aproveitava a festa. De algum modo que eu não saberei dizer. Ninguém, exceto ele próprio, saberia.

Foram vários cliques frustrados, todos seguidos de perto pelas duas mulheres que, a cada disparo, perguntavam se eu havia conseguido. E cada resposta negativa que eu dava de volta era imediatamente seguida por uma falsa resignação. “Ele é difícil demais. Deixa pra lá. Não vamos conseguir...” O que eu ouvia, entretanto, parecia-me outra mensagem, um apelo: “Por favor, tente mais uma. Apenas mais uma. Nós gostaríamos tanto se você conseguisse.” Tentei.

Minutos depois, durante um dos rodopios de João em torno do próprio corpo, disparei outra vez. E não acreditei no que vi se formar na tela da minha câmera! Lá estava aquele menino magro, lindo, com um sorriso no rosto e olhando diretamente para mim. Parecia até que tinha posado, tão profundo era o modo como me olhava e sorria naquele retrato. As duas senhoras me pareceram emocionadas. Eu as deixei ali e lembrei que estava naquela festa para fotografar o bebê dos meus amigos – o aniversariante.

Trabalho feito, decidi aumentar um pouco mais a satisfação dos meus amigos-clientes, entregando-lhes não somente as fotos pelas quais fui contratado para fazer, mas também a ampliação de uma delas, que eu mesmo escolhi para fazer-lhes uma surpresa.

Então, lembrei-me de João. Lembrei de como aquelas mulheres pareciam ansiosas por um retrato dele. E decidi lançar uma jogada: revelei aquela foto que me foi tão difícil conseguir e pedi que meus amigos entrassem em contato com as duas senhoras e lhes entregassem o presente.


Depois de testemunhar a tristeza daquelas duas mulheres a cada meneio negativo que eu fazia com a cabeça quando me perguntavam se eu havia conseguido, não me seria possível ficar indiferente à possibilidade de lhes trazer o contentamento por verem o sorriso congelado de João. É possível até que ambas jamais venham a contratar um serviço meu. Mas, para mim, a satisfação de imaginar que aquele sorriso estará ornando um porta-retratos, dizendo a elas todos os dias que o universo de João é tão ou mais divertido que o nosso, cliente nenhum jamais conseguirá pagar.


* nome fictício para preservar a identidade da criança e da família.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Palavras a um amigo morto

Acostumara-me com a distância, o que não me impedia de sentir falta dos momentos alegres que um dia tivemos juntos. Mas, por não nutrir expectativas de revê-lo, habituara-me à ideia do “nunca mais”. Os anos em nada diminuíram o carinho que sentia; mas aprendera desde então a gostar de longe, imerso nas lembranças de um tempo que sabia jamais voltaria.

Não obstante tudo isto, a notícia da morte de um amigo – ainda que distante e de quem aprendera a não sentir falta – não deixa de ser perturbadora. Embora não seja uma lei absoluta e irrevogável, a ordem natural das coisas impõe que as gerações antecessoras deixem o mundo dos vivos antes da geração que a sucede. E a perda de um amigo de minha geração me faz refletir acerca das possibilidades... Seria o abre-alas dando início a uma sucessão de perdas que culminaria, fatalmente, na minha própria?
Ver morrer um amigo é ter a certeza de que se iniciou a loteria às avessas, cujo prêmio ninguém quer levar, embora dele ninguém escape. E agora, José? Tristeza por quem morreu? Nenhuma. Quem parte deixa para trás a consciência de si próprio e, não sentindo a própria partida, não pode mais sofrer por estar privado da vida. José simplesmente não sabe que deixou de ser José. E jamais saberá. Mantido na ignorância do não saber, não se apercebendo de si próprio, jamais poderá notar que não é mais. Lamento por quem fica? Por alguns. Estaria sua mãe idosa bem assistida doravante? Não saberei dizer, afinal, estando tão longe...
Morrer é a única certeza que se tem da vida. Uma certeza que tem em seu bojo tantas formas diferentes de dúvidas que, por tal razão, revela-se intrigante... Ao enfrentar minha doença, acreditei que eu seria o primeiro a abrir o portão por onde todos passariam depois de mim em momentos, de causas e numa ordem desconhecidos. Então, chegando sorrateira, veio de surpresa a notícia de que meu amigo agora está morto.
O que mais me irrita em tal circunstância é todo o teatro que se faz em cima dos fatos. O aparecimento repentino de melhores amigos para sempre, a aparição de uma insincera saudade eterna revela o quão corriqueira ainda é esta tradicional beatificação instantânea e automática das pessoas, como se o simples fato de acabarem de falecer, lhe transformassem imediatamente em santos. Ainda bem que assim não é. Não tenho amigos santos e não será como um que me lembrarei de quem se foi agora. Meu amigo era homem e trazia consigo todas as falhas humanas. Amigo safado, algumas vezes mau caráter, imensamente chato e inconveniente. Este sim partiu. E não era menos meu amigo por levar consigo todos esses defeitos. Era meu amigo. Alguém com quem eu podia contar. Alguém com quem me diverti. Alguém de quem um dia me despedi, enquanto enchia o bagageiro de um carro com as caixas da minha mudança, com a certeza de que não o veria novamente...
E agora, José? Você jamais poderá me dar a resposta. Então, resta-me dizer adeus sem desejar que descanse em paz. Em sua atual condição de morto, não mais poderá distinguir paz e tormenta, dor e gozo... E agora, continuaremos todos os que aqui ficamos tocando em frente nossas vidas, enquanto não atravessamos o portal que você agora nos abriu.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Memórias Perdidas

Ao envelhecer, o ser humano tende a perder sua memória imediata e a de curto prazo, concentrando-se em eventos longínquos, rememorando tempos distantes, de uma época em que a sanidade física e a mental eram companheiras mais presentes.

Por vezes, senti-me aterrorizado, pensando em como deve ser ruim ver o corpo se deteriorar aos poucos e, junto com ele, a lembrança das experiências que acabamos de vivenciar - bem menos interessantes que as da juventude, é fato -, como aquela desagradável dor nas articulações causadas pelo leve ato de espreguiçar. Causava-me imensa angústia imaginar que triste prisão deve ser viver no passado, pensando em amigos que se foram e parentes já mortos, sem ao menos ter a consciência do mundo ao seu redor.

Hoje, percebo o quanto a natureza é sábia. Envelhecer não deve ser um processo fácil, especialmente quando vemos o tempo passando por nós, levando consigo muito de nossa história, carregando para longe pessoas, lugares e coisas que amamos. Pior que estar só é ter a consciência de estar só. Como sempre repito à exaustão, a ignorância é uma dádiva e quando apagamos de nossa mente os estalos que nossas articulações têm vivenciado nas últimas semanas, concentrando-nos nos desafios de corrida e natação que vencíamos quando jovens, não será isto um recado da natureza para nos aliviar os ombros do peso de uma existência frágil e penosa?

Quando um dia é sempre igual ao anterior e, durante os últimos cinco ou dez anos, simplesmente apagamos o que fizemos no dia anterior, estamos resumindo nossa impossibilidade de andar a apenas algumas horas, as últimas. Assim, diminuímos o tédio de estarmos anos a fio em uma cadeira de rodas. Quando lembramos nossos melhores amigos de juventude, sem nos darmos conta de que todos estão mortos há anos, estamos apenas vivendo o ontem, como se os tivéssemos encontrado há, quem sabe, uma semana ou um dia...

Assim, o velho mantém-se jovem, renovando-se a cada dia dentro do universo que é sua mente, permitindo-se viver uma vida que seu corpo decrépito insiste em tentar negar.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Isonomia

O recado veio por um terceiro. Decerto envergonhava-se de sua própria mesquinhez e preferia não se expor pessoalmente. Acusava-lhe de ter iniciado um perigoso precedente. Ao receber o recado, ele se indignou como há tempos não fazia. Discordou duplamente: primeiro porque não entendia o que havia de perigoso em tentar praticar uma gentileza; depois, por não ter sido ele o precursor da ideia. Infelizmente. A despeito do recado desaforado que recebera, teria orgulho de si mesmo se tivesse sido o idealizador da prática de tentar compensar uma injustiça, já que quem realmente deveria fazê-lo, quedava-se em omissão.

Em sua mente, estava muito claro que seus bens eram de sua inteira propriedade e que poderia dispor deles como bem entendesse e conviesse, não havendo qualquer tipo de precedente perigoso em tentar ajudar o próximo. Ao estender aos demais suas intenções, deixou claro que ninguém estaria obrigado se não tivesse interesse. Por esta razão, não admitiu a ideia de ser criticado e acusado de ter causado um desconforto por quem lhe era hierarquicamente superior. Qual acusação poderia recair sobre si? A de que estava incitando um grupo a agir de acordo com a própria consciência?

Cansam-lhe as pessoas de espírito inferior, que parecem procurar problemas e conflitos onde não existem e passam a vida inteira receosas de dar um passo, porque vivem à espreita de um golpe certeiro – que não virá. Este tipo de paranoia lhe dá a incômoda sensação de que é um sujeito ingênuo, beirando mesmo o limiar da tolice. O que não é verdade. E ainda que fosse, para ele seria preferível carregar a pecha de tolo ao peso da má vontade e da falta de humanidade.

Incomodava-lha pensar que a mesma pessoa que agora lhe sentenciava, dias antes se manifestara tão veementemente contra violações ao princípio da isonomia, apenas por figurar na parte prejudicada. Que tipo de legalidade é esta que impõe proibições a um ato apenas por não figurar expressamente a permissão em qualquer tipo normativo? Não é o direito que precisa estar expresso, e sim sua proibição.

Assim, ele aguarda sem a menor ansiedade a publicação de lei que o proíba expressamente de tentar ser justo, grato e recompensador. Enquanto isto não acontece, continuará discordando de quem não se limita a somente contrariá-lo, mas também tenta, de alguma forma, tolher sua liberdade de dispor daquilo que lhe pertence sem infringir leis e sem afrontar sua respectiva função social. Mormente, se quem o fizer insistir em se mascarar por trás de terceira pessoa, impingindo-lhe constrangimento em razão de sua própria covardia.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Enquanto isso no Child-Shop...

- O Sr. tem crianças para venda?

- Sim, sim! Mas, hoje só tenho aquelas duas ali... Aquelas na gaiola.

- O que são aquelas manchinhas vermelhas nas costas da menina?

- Meu caro freguês, como o Sr. pode ver, a gaiola é um pouco apertada e elas acabam ficando grudadas. Aquilo ali é um pequeno probleminha de pele, um fungo talvez. Mas, garanto que, assim que forem vendidas e soltas, a pequena irritação irá melhorar. Faz assim, o Sr. leva a menina e eu te dou grátis o medicamento pra passar!

- Eu queria ver a mãe pra ver se tem bom porte, se é saudável...

- Ah, a mãe?! A mãe já foi vendida! Faz alguns dias... Um pessoal levou, disseram que era pra ser escrava no Oriente Médio. Acho que é por isto que as crianças ainda choram um pouco, já viu, né? Às vezes, à noite, quando fecho a loja e as deixo sozinhas, ainda escuto um pouco elas gritando... Vê como têm boa voz! Mas, não se preocupe que já já isso passa também! Com umas chineladas elas fazem silêncio rapidinho...

- Elas estão meio fracas, né? É mercadoria garantida? Se eu comprar e ficarem doentes...

- Que nada, Sr.! É que acabei de abrir a loja! Sabe, né? Segunda-feira pela manhã... Elas ficaram o final de semana todo aí trancadas. Às vezes acontece da água acabar no domingo à tardinha, mas eu já coloquei água e comida assim que abri. Daqui a pouquinho o Sr. vai ver como elas estarão espertinhas de novo!

- Tá bom, o Sr. me convenceu! Vou levar, mas quero uma só. Quero o outro. O menino. Ele tá sem doença na pele... Até queria os dois, mas prefiro não arriscar levar aquela com fungo. Vai que isso pega na gente...

- Faz o seguinte, leva ele hoje e dá um pulinho aqui semana que vem. Vai ter batida no Morro, devem trazer mas uma gurizada pra venda também. Uns meninos fortes, bons pra trabalho! Umas meninas que devem crescer e virar uma beleza! Vem uns indiozinhos da Amazônia também... E uma garotada branquinha de olho azul importada direto de umas aldeias lá do meio da Europa!

- Então, falou! Negócio fechado. Levo ele e semana que vem eu volto pra ver os outros!

- Tchau! Foi um prazer negociar com você, freguês!

- O prazer foi meu!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Oásis de Bethânia

Dá-se o nome de oásis às pequenas porções de terras férteis, próximas a nascentes de água, dentro de um deserto. Tratam-se de territórios extremamente valiosos por possibilitarem paradas estratégicas de caravanas e permitirem repouso e abastecimento das frotas que singram as imensidões áridas. São locais visados para a restauração das energias esvaídas de viajantes e animais combalidos pelas condições inóspitas do trajeto. Em sentido figurado, oásis significa renovação, prazer ou consolo diante de adversidades.

Renovação. Ultimamente tenho tocado com certa frequência neste tema. E nos mais variados contextos, dentre os quais incluo os debates inflamados sobre a carreira da Madonna, passando por uma necessidade de desenvolver estratégias de marketing para renovar a imagem da empresa onde sou empregado, chegando à análise dos últimos trabalhos de Maria Bethânia.

Dissidente dentre grande parcela dos fãs da Abelha Rainha, costumo dizer que o tempo foi generoso com sua voz, diferentemente do que aconteceu com inúmeros cantores e cantoras que sentiram em suas cordas vocais o peso dos anos. Os trabalhos antigos de Maria Bethânia me conquistaram, mas não tanto por sua voz intensa, porém não lapidada, muitas vezes evocando uma agressividade que julguei desnecessária (como se verifica no “Soneto de Fidelidade” gritado de “Rosa dos Ventos”, em 1971). Atualmente, sem perder a gravidade, seu timbre vem ganhando certa maciez que talvez desagrade aos que guardam como paradigma a crítica social entoada nos versos de “Carcará”.

Quando falamos sobre o atual momento na carreira de Dona Maria, ouço com bastante frequência uma crítica sobre a mesmice que pairou em seus trabalhos mais recentes, nos quais se tem verificado uma reiterada alternância entre violas caipiras e sonoridade sertaneja de um lado e referências africanas, candomblé e rodas de samba de outro. E, divergente que sou, acho um tanto injusta a permanência da crítica diante de álbuns modernos como o elegante “Tua” e o conceitual “Mar de Sophia”.

Agora, ouvindo o “Oásis de Bethânia”, cujo lançamento oficial está previsto para o próximo 1º de abril, deparei exatamente com isto: renovação. E não me refiro apenas à sonoridade, mas à própria temática das músicas. Com apenas 38 minutos, as dez faixas de “Oásis de Bethânia” cantam a transformação. A mudança dos rumos, os amores que se vão e a superação da dor. Como na Betânia bíblica, onde, de acordo com a lenda, Lázaro voltou da morte, o álbum, de um modo ou de outro, deixa claro que nada é eterno e que tudo pode ser revisto, revisitado e reformulado. É o reverso daquilo que está posto, descortinando novas existências, reais ou imaginárias. Os conselhos entoados na terceira faixa, “Vive”, composição de Djavan, “Desencana, meu amor/Tudo seu é muita dor/Vive!”, fazem crer ser possível reverter em alegria as vicissitudes, da mesma forma que “Lágrima”, faixa que abre o disco, traz a ilusão de ser plausível “fazer das lágrimas que choro estrelas a brilhar”.

Pesando contra a qualidade da obra, somente os desnecessários agudos que Dona Maria assume na execução da excelente “Carta de Amor”, composição de Paulo César Pinheiro, com texto de autoria da própria cantora, que passeou bravamente na seara da literatura. Além disso, há uma desaceleração à medida que as faixas se sucedem, dando a impressão de que o melhor foi aproveitado no começo, e deixado para o final, não exatamente o pior, porque o álbum não se encerra com uma música ruim, mas talvez o mais frio. Ocorre que as faixas que o abrem são mais comoventes, mais intensamente dramáticas, adequadas para o dedinho em riste, enquanto aos poucos, vão adquirindo uma levada jazzística, mais cool, o que não tira a qualidade da produção.

Com uma concepção minimalista, o disco valoriza sobretudo a voz da cantora, priorizando arranjos discretos e elegantes, como o bandolim de Hamilton de Holanda na já citada “Lágrima”, o sax de Marcelo Martins em “Casablanca” e o piano de Vítor Gonçalves em “Barulho”, estas duas, composições de Roque Ferreira, que também assina a melancólica “Fado”. Além disso, conta com um delicado repertório, escolhido pela própria Bethânia, que inclui faixas inéditas, bem como obras arraigadas no cancioneiro popular brasileiro, como “Calúnia”, de Paulo Soledade e Marino Pinto, eternizada na voz de Dalva de Oliveira, e “Velho Francisco”, belíssima música de Chico Buarque.

Melancólico, lento, às vezes arrastado, conjugando verbos no passado, evocando tempos que se foram e incertezas sobre o que virá, sem, no entanto, deixar esvair a esperança de que o futuro incerto se revelará bom, “Oásis de Bethânia” é um disco nostálgico, que colaciona a sonoridade daquela Maria de álbuns épicos, como “Mel”, “Álibi” e “Ciclo”. Reconfortante, é para ser ouvido à meia luz, com a gravata afrouxada no colarinho.

quinta-feira, 22 de março de 2012

MDNA, um acerto depois de uma série de erros

Nunca fui fã de música pop, quem me conhece sabe bem. Menos ainda da Madonna, cuja figura me incomoda muito com sua notória antipatia e ausência de carisma, além de uma marcante falta de voz. Mas, isentando-me de minhas preferências pessoais, sempre a admirei como artista, por sua constante capacidade de se renovar. E dentre tantas obras de gosto duvidoso que ela já produziu, consigo tirar coisas muito boas, como os álbuns "Ray of Light", "American Life", “Erotica” e "Bedtime Stories". Mesmo porque nem só de timbre e alcance vocal é feita a boa música. Que o digam as adoráveis gravações de Maria Bethânia e de Nara Leão.

Com uma obsessão meio estranha por uma artista de quem nunca me considerei um admirador, tento acompanhar cada novidade que a Madonna lança. Em primeiro lugar para ir contra meu próprio preconceito sedimentado de que música pop é sinônimo de lixo. Gosto de me surpreender e mesmo de me contrariar. Já dizia Raulzito, "prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Em segundo lugar, para descobrir qual foi ideia original que ela trouxe. E neste último aspecto, confesso, tenho andado bastante decepcionado.

Desde o álbum "Music", um dos piores de sua carreira, que só se salva por ter incluído uma versão bem razoável, ainda que incompleta, de "American Pie", obra prima de Don McLean, e a qual, aliás, a própria Madonna não aprecia, seus trabalhos vem se repetindo à exaustão! São aproximadamente 15 anos utilizando-se reiteradamente a mesma fórmula! Quem quebrou um pouquinho o marasmo e ausência de criatividade foi o disco "American Life" que, apesar de abraçar o eletrônico, deixou um pouco de lado a atmosfera dançante. Depois, seguiram-se os monocórdicos "Confessions on a Dance Floor" e "Hard Candy" que não revelaram bem a diferença da “Rainha do Pop” em relação a tantas outras fotocópias do pop-dance, como Lady Gaga, Beyoncé, Britney Spears, a ponto de justificar seu título de nobreza.

É aí que me surpreendeu ouvir MDNA, o álbum novo, cujo lançamento oficial está previsto para o próximo dia 26 de março. Continua mais do mesmo, sejamos honestos, sem nenhuma originalidade. No entanto, desta vez o disco trouxe melodias bastante captáveis, daquelas que ficam na cabeça e se podem assoviar.

MDNA começa com duas faixas monótonas, de batida bastante dançante, é fato, mas que não conseguem empolgar, e parece estar fadado ao fiasco quando, imediatamente encontra seu pior momento, na terceira faixa, “I’m Addicted”, extremamente cansativa. Porém, a partir daí, os passos começam a se acertar e a deliciosa “Turn Up The Radio” inicia a parte boa do álbum. Na faixa “Give Me All Your Luvin”, que conta com a participação de Nicki Minaj e M.I.A., o retrô coloca-se em evidência no coral cafoníssimo – e por isto mesmo, muito agradável de se ouvir –, que mais se parece com os gritos de animadoras de torcida. Da mesma forma, “Superstar” e “I Don’t Give A”, que também conta com a participação de Nicki Minaj, não ficam devendo coisa alguma a qualquer sucesso eletrônico dos anos 80, acrescentando-se ainda como um plus o crescendo final com que esta última faixa se encerra.

As letras vão desde a pieguice adolescente da brega “Superstar” (“Uh-lalá, você é meu superstar (...) Você é meu mafioso, como o meu Al Capone”) até o transcedental de “I’m a Sinner” (“Como o sol, como a luz, como a chama/Tal como a tempestade eu queimo através de tudo (...) Eu sou uma pecadora, eu gosto de ser assim”), não sem passear pelo lado sexualmente apelativo que não poderia deixar de aparecer em um trabalho da Madonna (“É tão erótico/Esse sentimento não pode ser vencido/Está passeando por todo meu corpo/ Sinta o calor”). O fato é que, independentemente da temática cantada, é impossível não sentir vontade de cair em uma pista de dança ao som de MDNA. A batida acelera e reduz na medida exata, abrindo todas as possibilidades que uma boite pode oferecer, desde a pura e simples diversão descontraída até a sensualidade de corpos suados em movimento hipnótico.

O álbum encontra seus momentos mais calmos nas faixas “Masterpiece” e “I Fucked Up”, na qual a artista pede desculpas, reconhecendo que ferrou tudo e errou novamente. Tudo bem, Madonnna, está perdoada. Aqueles que admitem o próprio pecado dão um passo inicial para a salvação. Aliás, ao dizer “Eu cometi um erro/Ninguém faz isso melhor que eu”, Madonna poderia muito bem estar se referindo aos seus últimos trabalhos, mas não a MDNA (Ok, a letra não fala nem de uma coisa nem de outra), que possui músicas que podem mesmo ser qualificadas como belas, coisa quase impossível de se ver neste universo pop de pseudocantoras fabricadas em série. Dou aqui minha mão à palmatória reconhecendo, que, embora nada justifique este fanatismo afetado que as pessoas alimentam por uma cantora mediana como tantas outras, passados os minutos iniciais, o álbum é muito bom e revela-se um perfeito convite para cair na pista.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Abandono

Há sempre um pouco de mágoa em escrever. Porque as palavras são ingratas com aquele que delas faz uso. É como uma amizade inconstante, que num momento se faz presente, dando tudo de si, ocupando todo os espaços vazios e oferecendo o conforto à solidão dos dias e das noites e de repente traz o abandono, desfazendo a esperança de que alongaria sua presença. Então, sem dizer sequer adeus, vira as costas e sai. Leva consigo a alegria de sua companhia e deixa em seu lugar somente a saudade e a incerteza sobre se um dia voltará.

Quem fica sofre. O medo de ser deixado para sempre torna ainda mais dura a negação da equação em que a soma do acostumar-se e do gostar era igual à felicidade por poder externar-se e desabafar. Então, gastam-se horas vazias, segurando em vão um lápis e um papel ou alisando com dedos vacilantes um teclado macio. É uma síndrome de abstinência, similar à que conduz o fumante a segurar entre os dedos um cigarro, ainda que apagado, somente para manter a longínqua sensação táctil do ato de fumar, que jamais substituirá o prazer inebriante da nicotina.

Deseja-se que as palavras abundem, mas elas apenas faltam. Assim, simplesmente. Como se jamais tivessem existido. Como se faltar fosse a única condição imposta em sua gênese para sua gênese. Até que o escritor adapta-se novamente à realidade do abandono, à insuficiência e à inexpressividade vocabular.

Mas, então, eis que surgem em profusão, fazendo crer novamente que vieram para ficar, brincando com os sentimentos sérios de quem se acostumou a ser abandonado, iniciando o eterno ciclo de idas e vindas.

Não há em quem escreve o orgulho dos apaixonados que, deixados pelo objeto de sua paixão e de seu desejo, lançam mão de jogos e estratagemas que os impedem de assumir aquilo que sentem. Ao contrário, quem escreve se humilha. Está sempre rastejando por qualquer sobejo lexical e o mínimo sinal da menor e mais essencialmente monossilábica palavra será suficiente para trazer o ímpeto de agarrá-la com sofreguidão, implorando, sem a menor dignidade, para que não vá embora.

Escrever é ser. E quem escreve só é enquanto o faz. Mesmo com o sofrimento e as vicissitudes inerentes à inconstância que é existir, aquele que escreve precisa estar sendo. Sempre. Ou terá por jazigo perpétuo o limbo sombrio de uma realidade sem a linguagem que o traduz sobre um pedaço qualquer de papel de pão, sulcado pelo caminho sinuoso que se abre à medida que suas curvas são construídas pela tinta de uma caneta.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Era uma vez...

Morava distante, o que a obrigava diariamente a levantar cedo de sua cama para trabalhar. De origem pobre, chamava-se Cynderella da Silva, assim mesmo, como todos os YY e LL cuidadosamente escolhidos por seus pais, que acreditavam com isto, conferir algum status ao seu nome e imprimir alguma força em sua personalidade, o que a levariam longe. Mas, o mais longe que seu nome a levou foi ao seu mundo idílico, existente apenas em sua cabeça de leitora voraz de livros de bancas de revistas.

Era uma moça sem belezas e, por esta razão, jamais fora capaz de despertar paixões em quem quer que fosse. Romântica, devorava todos os volumes de “Sabrina”, “Júlia” e “Bianca” que lhe caíam nas mãos e, sempre que podia, comprava um exemplar. Era um luxo ao qual se permitia. “Gastar com cultura é investimento”, justificava-se. Acostumada à solidão que acompanha a fealdade e íntima dos títulos nos quais a palavra “amor” estava sempre presente, fantasiava inúmeras vidas, similares às que encontrava nas páginas da literatura barata que consumia.

Às vezes era uma belíssima serviçal de uma mulher rica, amargurada e cruel, cujo único herdeiro era um filho garboso e de bom coração. Todos viviam num castelo – que sempre ficava na Escócia (era um nome bonito para um lugar) – mas a rica proprietária transformava sua vida em um tormento, para horror do seu filho, que, num dado instante, descobria-se apaixonado pela pobre injustiçada, que invariavelmente se chamava Jennifer. Com a morte da mãe, o casamento do filho era o caminho inevitável e a ex-criada, agora transformada em uma requintada dama, vivia feliz para sempre ao lado do seu amor. Numa outra ocasião, era uma belíssima órfã, Jennifer, escocesa, que vendia flores, até que, num dia de chuva, um homem garboso de bom coração lhe aparecia e comprava todo o estoque. Era rico, claro. Mas, casado. E sua mulher, como não podia deixar de ser, amargurada e cruel... O final de todas as histórias era sempre o mesmo.

Ia, desta forma, conduzindo sua vida sem atrativos, perdendo-se em devaneios através dos quais conferia alguma graça às horas que gastava no trajeto de casa para o trabalho e às outras tantas que perdia no caminho inverso, em alguma realidade fantástica que tornava mais leve sua vida medíocre. Possuía uma existência insignificante e se dava conta disto quando punha um final em seus pensamentos. Sofria nestes momentos, como quem sofre a perda de uma vida, mas, tão logo era consumida pela dor de ser ela própria, engajava-se na construção de uma nova fantasia e, sem se aperceber de si mesma, enfrentava com resignação a massa informe que, todos os dias, a esmagava na entrada e na saída do metrô.

Naquele dia, como por inspiração divina, constatou, encantada, que poderia se transformar em uma personagem de conto de fadas. Não mais se enxergava na plataforma daquela estação lotada de pessoas que esbarravam umas nas outras como se atraídas por grandes ímãs ou por uma força gravitacional contra a qual era impossível lutar. Cynderella era ela mesma, mas sem os YY e LL, o que a tornava um pouco menos Gata Borralheira. O que antes era uma sirene de aviso, agora era um arauto que anunciava a aproximação, não de sua carruagem, pois queria mudar e ser mais moderna, mas do trem que a conduziria à felicidade eterna, com que se encerram todas as histórias que se iniciam com “era uma vez”.

Mais imaginativa que o habitual, subvertia o conto, adaptando-o ao seu próprio momento, igual a todos os outros de todos os dias. Ela não era mais uma assalariada atrasada para seu trabalho. Havia sido transformada por uma fada madrinha e era agora uma donzela que, trajando um longo vestido e um par de delicados sapatinhos que faziam ainda mais belos seus pés, encantava a todos com suas maneiras refinadas, sua beleza e sua elegância.

Depois de vivenciar todo o esplendor de um baile, repleto de convidados tão nobres quanto a condição que ela própria ostentava, estava atrasada sim, mas para adentrar o trem encantado, que, inexoravelmente, transformar-se-ia em abóbora quando a mágica chegasse ao fim.

Sentia-se tensa e buscava por espaços abertos dentre os convivas, que bailavam cada vez mais próximos uns dos outros, transformando-se em uma verdadeira barreira humana e impediam-na de se aproximar da gare onde tomaria seu luxuoso vagão...

Foi arrancada bruscamente do onírico cenário, quando se deu conta de que o metrô estava parado ali diante de seus olhos e a dança dos convidados adquiriu contornos de turba, dentro da qual empurravam-se uns aos outros, numa tentativa frenética e desesperada de entrarem no vagão apertado, que jamais comportaria de forma adequada todo aquele contingente que se movia como uma manada de animais em debandada. Empurrada para dentro, como um plâncton que flutua ao sabor das ondas, mas, incapaz de nadar, tampouco pode escolher o destino que pretende seguir, olhou para baixo e viu que estava com um dos pés descalços. Tentou voltar à plataforma.

Não conseguiu vencer o caos da multidão e antes mesmo que pudesse se aproximar das portas, o apressado aviso sonoro lhe dera a certeza de que estas se fechariam, encerrando-a para sempre naquele esquife coletivo. A composição partira... E então, sem nenhum glamour, Cynderella da Silva perdera seu sapatinho. Já passara há muito de sua hora, mas, mesmo assim, seu vagão não viraria abóbora. Seria sempre o mesmo metrô de todos os dias e isso era ainda mais triste. A vida nunca seria um conto de fadas... Sem que jamais algum príncipe a tivesse seguido, seu sapato deteriorou-se lentamente naquele trilho, enegrecido com a fuligem que se acumulou a cada trem que por ali passou.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um conto de verão

Ela entrou com o bebê no colo. Ele nunca foi um homem bom. Fazia um julgamento de si próprio desprovido de falsa modéstia e acreditava-se com o caráter um nível acima do da grande maioria dos indivíduos e nutria um notório desprezo contra aquilo que se chamava “raça humana”. Não sentia raiva do indivíduo ao seu lado, mas desprezava o grupo de todos os indivíduos que estavam ao seu lado e dentro do qual se inseria. Não se achava bom. Supunha, sim, que a raça humana é que estava a um passo atrás de si. “As pessoas são más”, dizia a si mesmo e, sem se acreditar bom, tinha apenas a impressão de que agia com o mínimo de postura com que deveriam agir todos. Pouco se importava com o maniqueísmo da espiritualidade, mas encontrava em Immanuel Kant um grande aliado. Ele sempre sonhou em mudar o mundo, embora nunca tivesse se dado ao trabalho de acreditar nesta possibilidade. E para não sucumbir por sua falta de fé, ele nunca deixou de desejar. Com tudo que podia. Se o fizesse, acabaria por atirar no próprio ouvido. Perdera a esperança que nem mesmo depositara no homem e desprezava-o por isto. Mesmo assim, tentava praticar boas ações, sempre repetindo para si mesmo: “não é mais que minha obrigação; é o mínimo que todos deveriam fazer.”

Era egoísta e por isto praticava o que diziam ser o bem, o que para ele era só mais uma faceta do seu próprio olhar sobre si mesmo por desejar estar em consonância com seus próprios valores e isto lhe dava prazer. Era a busca por este prazer que o fazia praticar um ato em prol da mesma humanidade da qual não se enxergava como membro, embora o fosse. Não acreditava em altruísmo despropositado, porque no âmago todos fazem algo visando à própria satisfação pessoal. Sua consciência nunca lhe pesou por pensar assim. Pelo contrário, sempre achou bom que existissem pessoas capazes de sentir o tal prazer de ver o bem do próximo e correrem atrás dele. Isso tornava o mundo um lugar um pouco menos insuportável.

Ao vê-la desajeitada segurando aquela criança, ele percebeu que ela era, evidentemente, evangélica. Lutara sempre consigo mesmo para abolir preconceitos e ideias pré fabricadas que costumeiramente conduziam à intolerância e, por esta razão, nunca gostou de conceitos limitantes, tais como “cara de crente”, “jeito de gay” ou “ar da bandido”... “Gay, crente e bandido não têm cara”, dizia. Mas, naquele momento, contra seus princípios, ele teve a certeza de que ela era evangélica, afinal, ela trajava uma sóbria camisa de manga longa e usava uma saia na altura do tornozelo, a despeito do calor escaldante que mordia a cidade com suas presas pontiagudas. Sem se dar conta de que ele mesmo trajava um terno, como trajam os pastores, ele teve a absoluta certeza de que ela era evangélica.

Naquele momento, ele não pensou na resistência que nutria contra crianças e na própria intolerância que tinha em relação a cristãos – mais um preconceito seu do qual ele tinha consciência e o qual tentava não alimentar. Apiedou-se dela. Não por bondade, que ele não era dado a este tipo de pieguice. Apiedou-se porque ele mesmo era arrogante. E viu apenas uma mulher em uma sociedade de homens, uma negra em uma sociedade de brancos e uma evangélica. E também por vê-la obrigar-se a segurar uma criança no colo enquanto lutava para entrar naquele vagão repleto daquilo que ele desprezava: gente.

Mas nada do seu desprezo passou por sua cabeça naquele momento. Não pensou no quão impaciente as crianças normalmente o tornam. Não pensou em todos os embates ideológicos que já travara com um cristão. E assim, sem pensar em nada, mecanicamente, levantou-se e ofereceu-lhe seu lugar. "Jesus lhe abençoe", ela disse, confirmando suas suspeitas. Somente então perguntou-se se ela teria aceitado a sua oferta e sentado no lugar que ele lhe cedera se soubesse que ele era ateu. Divertiu-se com este pensamento e sorriu. Fechou os olhos e prosseguiu sua viagem em pé.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Politicamente correto ou infeliz?

João era tão pobre que era nordestino.
Maria era tão antipática que era paulista.
Justino era tão burro que era português.
Joana era tão safada que era carioca.
José era tão insignificante que era capixaba.
Mauro era tão corno que era goiano.
Antônia era tão preguiçosa que era baiana.
Marcos era tão gay que era gaúcho.
Francisco era tão caipira que era mineiro.
Toda mulher precisa de terapia. Ter a pia cheia de louça pra lavar.

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Você se irritou com alguma das frases acima? Uma pena! Então, você já se infectou com o “vírus do politicamente correto”, uma doença gravíssima, que afeta uma geração hipócrita, que perdeu o senso de humor e se revolta de forma absoluta quando alguém faz alguma piadinha étnica, machista, racista, etc.

O vírus do politicamente correto faz você perder o seu julgamento moral, de tal forma que você se consterna da maneira mais profunda quando vê uma mãe dando um tapinha corretivo no próprio filho, mas não se assusta quando põem fogo em mendigos nas ruas, agridem empregadas domésticas em pontos de ônibus, assassinam pequenos animais a pauladas...

Dias atrás eu estava vendo TV Pirata no Canal Viva. A esquete a que eu assistia mostrava um filho horrorizado que, em uns poucos instantes, descobriu diversos segredos sobre a mãe e o restante da família. Desesperado, ele perguntou à sua mãe o que mais faltava descobrir. Ela então levantou sua camisa e puxou de suas costas um zíper, como se estivesse abrindo sua pele, revelando sob a suposta pele clara uma camada negra e disse: "Você é de cor!" Após rir um bocado com aquele quadro nostálgico, pensei, não sem um pouco de tristeza, que uma anedota como aquela jamais seria permitida num veículo de comunicação de massa atualmente. Não, eu não sou racista! Não me solidarizo às ideologias de Hitler ou da Ku Klux Klan e fiquei profundamente abismado semanas atrás, com a circulação da notícia de que um garotinho etíope, de apenas seis anos, havia sido expulso de um restaurante em São Paulo, por ser negro e, por esta razão, confundido com um morador de rua! Mas, naquele momento, eu – com meus cabelos crespos de quem tem sangue negro nas veias – soube distinguir o humor ficcional e a realidade! E ri da piada, sem nenhum constrangimento por achar que eu estivesse agindo de forma discriminatória.

Bons tempos aqueles em que o senso de humor prescindia justificativas perante grupos inflamados, cheios de ódio, ávidos pela condenação ao massacre público. Quando Odete Roitman e mesmo a TV Pirata apareciam na televisão, mas você não era expulso da sala por pais cautelosos, preocupados com a sua formação e com a possibilidade de, num futuro não muito distante, tornar-se um maníaco violento e beligerante. Até mesmo porque, muito antes disso acontecer, você levaria uma boa surra de sua mãe e aprenderia a se comportar e a ser capaz de diferenciar a ficção da vida real. Você tirava boas notas e não obrigava os professores a passarem-no de ano mesmo se não tivesse aprendido o "bê-a-bá".

Eu mesmo já levei umas boas palmadas e correadas de minha mãe, mas hoje só tenho a lhe agradecer por, modéstia à parte, ter me transformado num homem correto e de caráter firme. Agora, isso é violência infantil! E quando as crianças na escola se xingam mutuamente, como todos da minha geração e das que me antecederam fizeram também (e nos casos muito, muito mais graves, ficávamos “de mal” por uma semana: era a punição máxima para esses delitos!), hoje em dia isso é bullying! O resultado desta exacerbação maniqueísta, em que o certo e o errado se contrapõem o tempo todo, sem que haja uma contextualização específica dentro da qual se pode definir um e outro, é a criação pessoas com a mentalidade deficiente, incapazes de raciocinarem de modo crítico, somente pensando de forma mecânica, automática, absolutizando toda e qualquer circunstância! Será este o admirável mundo novo que Aldous Huxley previu?

Dias atrás, lendo uma coluna do Artur Xexéo na qual ele fazia uma alusão ao “samba do crioulo doido”, de Sérgio Porto, fiquei estarrecido com a repercussão que a utilização da frase causou, pelo simples fato de terem sido mencionadas as palavras “crioulo” e “doido”. Nem sou assim grande admirador do Artur Xexéo, mas não pude deixar de compartilhar sua estupefação ante a celeuma provocada pela conotação pejorativa que “crioulo” e “doido” possuem! Foi tão execrado que, para satisfazer os politicamente corretos, o samba do crioulo doido foi transformado no “Samba do Afrodescendente com Sérias Deficiências Culturais e de Aprendizado Devido à sua Condição Social Decorrente da Marginalização que o Povo de sua Raça Sofreu Desde o Advento da Escravidão no Brasil”. Será que o ilustríssimo Castro Alves pensou que algum dia sua “legião de homens negros como a noite, horrendos a dançar” teria que se perder para sempre, porque dizer que o negro é horrendo consiste em racismo de mais alto grau?

Tenho algumas amigas que tiveram bebês recentemente e eu mesmo ganhei um sobrinho, há pouco mais de três anos. Apesar do meu distanciamento e da minha total falta de jeito com crianças, sou obrigado a concordar que essa gurizada é bastante linda, fofa e outros adjetivos típicos, utilizados quando o sujeito que os recebe tem pouco menos de cinco anos de idade... Mas, confesso, tenho andado com medo de elogiar a novíssima geração! Em meus piores pesadelos até me imagino sendo arrastado, algemado apenas por ter dito a alguma das minhas amigas-novas-mães que o seu filho era uma coisa gostosa! Pedofilia é crime e, claro, "coisa gostosa" revela seu apetite sexual animalesco e quase incontido!

Honestamente, ando de saco bastante cheio deste discurso vazio de quem se prega dono da verdade e se preocupa demasiadamente em substituir a palavra “favela” por “comunidade”, mas não move uma palha para modificar a realidade sofrida do desafortunado que ali vive. Que realidade é esta na qual as palavras ganham vida própria e são dotadas de um peso que as torna mais ou menos valiosas que uma sinônima? Ou pior, porque palavras devem ser substituídas por outras que sequer guardam consigo qualquer tipo de sinonímia, se a ideia que se quer expressar com uma não pode ser traduzida pela outra? Então o certo e o errado têm por limite apenas a externação deste ou daquele pensamento? Não, para mim não dá! Gosto da riqueza vocabular e da utilização de termo chulo para descrever a ideia chula. Gosto de piadas depreciativas, que são engraçadas justamente por serem depreciativas. Gosto de quem compreende a permissividade às piadas depreciativas exatamente porque tem visão ampla, e sabe que cada coisa tem seu lugar. De gente que é feliz sem culpa, porque distingue a anedota e a tragédia, fazendo uso constante da primeira no esforço de se evitar a segunda. É por tudo isso que rio da minha própria insignificância, por ter nascido naquele lugar perdido e desconhecido, o Espírito Santo; da minha pobreza de nordestino e da minha preguiça de baiano, já que vivi dezessete, dos meus 31 anos, na Bahia; da minha safadeza, por ter adotado o Rio de Janeiro como meu lugar do coração. E claro, da minha viadagem, porque, apesar de não ser do Rio Grande do Sul, alimento o sonho de um dia conhecer as Serras Gaúchas!